BORDÕES AOS BORBOTÕES

Bordão? Que negócio é este?
O que vem a ser bordão?
E eu ― que não sou otário ―
procurei no dicionário
e encontrei a explicação:
Bordão quer dizer bengala,
apoio, arrimo, porrete.
Pensei: que troço cacete
pra pôr na televisão!

Mas, por força do destino,
veio o Paulo Celestino,
que é diretor de artista,
e me ensinou que, bordão
é aquela frase-padrão
que dá força pro humorista.

'Ah, éé???' ― eu perguntei.
'Pois é!' ― disse o Ary Toledo.
'Perdão! Posso esclarecer?'
pedi ao Jorge Lorêdo.
E tanta gente explicou
'nos seus mííínimos detalhes',
que estou até ensinando,
com precisão e clareza,
Porque, 'só abro esta boca
quando eu tenho certeza'!

'E quanto é que eu levo nisso?'
(Bordão do Moacyr Franco.)
Os bordões de antigamente:
'Ô, Guto, eu posso cantar?'
'Tutu na mão do menino!'

'Canta. Canta, mas não mente!'
'Tempo bom... Não volta mais..."
velhos bordões do Lilico.
'E então? Trabalhas na casa?'
Responde: 'É bonito isso?'

E o Golias? Que saudade!
'Ocride!' ― lembram-se disso?
Era sucesso total!
'Olííímpia!' ― 'Ô, Mussolini!'
'Esta família vai mal!'...

Hoje em dia, outros bordões
(um mais velho, outro mais novo),
não saem da boca do povo
e grudam em seu coração.

O 'Af Maria' do Chico
foi um bordão que deu pé.
'Barbaridade, guri!'
consagrou a Salomé.
'Sim, eu sou, mas, quem não é?'
(bordão na medida certa)
enquanto o Pantaleão,
pergunta: 'É mentira, Terta?'

'Tás brincando!' ― do Costinha.
'Coisa horrorosa' ― do Agildo.
'Guenta!' ― do Paulo Silvino.
'Não tem terror!' ― do Arlindo.

Geraldo Alves pergunta:
'Tens mãe?' (E lá vai Barão!)
Maria Teresa afirma
que 'furunfá é tão bão!'...

Bordão é a palavra mágica
que ajuda a tocar pra frente!
Se a gente não se enganar
não vai dar para aguentar;
Tá 'impressionante', né, gente?

'Madeleine? E o Brésil
que não sai do pensamento?
E esse Riô de Janeirro?
Como foi le carnaval?
O que? Caiu o cruzeiro?!
Em quanto? Trinta por cento?!
Não quer que eu volte, Madá!
Eu já sei: amancebou-se!'
'Brasileiro é tão bonzinho!'...
'Mui amigo', esse gordinho
que planeja tanto aumento!

O bordão é um desabafo
um jeito de rir da fome,
porque, pra rir de verdade,
só se for 'assim c'os home'!
Só se tiver um marido
feito o Oscar, podre de rico!
Só se for Paulo Gracindo
dando uma de Odorico;
só se for o Aragão
que foi à Serra Pelada;
e, quando o Mussum lhe mostra:
'Renatis, a coisa é preta!'
Ele diz, numa risada:
'Audácia da Pilombeta!'

O que? Já falei demais?
'Só contaram pra você!'
Quer que eu fale do Delfim?
'Queriiias!' ― já está no fim.
E ― antes de despedir ―
eu peço licença ao Jô
e também 'quero aplaudir!!!'

1983

© 2023 Marcos Resende
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